Coleção Clássicos da Literatura Juvenil

Apresentação e resenha dos livros da coleção editada pela Abril Cultural entre 1971 e 1973.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Volume 50 - Tom Jones - Henry Fielding

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terça-feira, 7 de junho de 2011

Volume 49 - O Capitão Fracasso - Théophile Gautier

O Capitão Fracasso é um desses livros para os quais o leitor olha na estante e pensa que o tempo dedicado a ele não vale a pena. Mas, como diz o ditado, não se deve julgar um livro pela capa -- ou, em última instância, pelo título.

Escrito em 1835 por um seguidor ávido de Victor Hugo, o penúltimo volume da coleção Clássicos da Literatura Juvenil cumpre de forma eficaz o papel de distrair a burguesia das questões políticas que assolavam a França naquela época, cinco anos após a Revolução de 1830. Já discorremos, ao longo das resenhas apresentadas, sobre a situação francesa do século XIX e o medo que a referida classe tinha de ver o sangue derramado aos litros, como ocorrera durante a Revolução Francesa. Por isso, um romance de capa e espada como este viria bem a calhar, embora só viesse a ser publicado em 1863.

Aqui, o narrador nos leva ao reinado de Luís XIII e, com um incrível poder descritivo que dá cor, textura, temperatura e cheiro ao ambiente, faz-nos entrar no território lúgubre e abandonado do castelo do Barão de Signognac, nobre decadente que descende de Palamède de Sigognac, um dos nobres que fielmente serviram a Carlos Magno, e cuja dinastia se viu à míngua devido à má administração dos bens de seus descendentes. Ali, na região da Gasconha, o jovem barão é um solitário que se isola da sociedade e que, por orgulho, não procura outros nobres ou o rei para pedir-lhe auxílio. Assim, vive dentro dos limites do muro do castelo desgastado pelo tempo, pelos cupins, pelos ratos e pelas intempéries, na companhia de seu cachorro Miraut, de seu gato Béelzébuth, de seu cavalo Bayard e do criado Pierre, ex-professor de esgrima que se dedicara a criar o nobre quando os pais dele vieram a falecer.

A rotina do jovem é alterada quando, numa noite, uma trupe de comediantes bate à sua porta em busca de abrigo. Estes, vendo a miséria e a solidão do rapaz, convidam-no para que os siga a Paris, para onde se dirigiam. Imbuído que estava da secreta vontade de sair da solidão e ainda mais da paixão pela jovem e recatada Isabelle, uma das quatro atrizes, o Barão de Sigognac parte em busca de aventuras com a trupe.

A primeira parte do romance poderia ser considerada centrada no estreitamento de laços de amizade do jovem com a equipe formada por Tirano, chefe da companhia, Blazius, ex-diretor de colégio que se fora suspenso devido ao alcoolismo e também conhecido sob a alcunha de Pedante, Scarpin, ator também experiente, Léandre, o galã das peças, Matamouros, o bobo da corte, e as atrizes: Léonarde, a matrona; Zérbine, a morena sensual e provocativa, Séraphine, que sente constante inveja de Zérbine, e Isabelle, virginal e recatada, filha de uma grande atriz trágica e de um misterioso nobre. Neste período, o Barão de Sigognac não apenas compartilha o prazer da boa mesa e da recepção após os espetáculos bem-sucedidos, como também a miséria e o perigo da morte pelo frio em meio às tempestades de neve. É, a propósito, em meio a uma nevasca que morre Matamouros, já velho e franzino, e é quando o rapaz se oferece como substituto para o papel que o ator tinha na farsa que encenavam nas cidades que percorriam. Para proteger a nobreza e a ascendência, adota o soturno título de Capitão Fracasso. É também nesse período que entram em cena as figuras do ladrão violento Agostin e Chiquita, sua franzina companheira adolescente. Não tendo dado certo um bote sobre a companhia teatral em meio à estrada deserta, Agostin é escorraçado por Tirano, e Chiquita confessa à Isabelle que tinha se enamorado de seu falso colar de pérolas “da cor da lua”, ao que a jovem, numa atitude de bondade e desprendimento, tira o colar do próprio pescoço e o coloca em volta do pescoço da menina.

Ocorre que, na cidade de Poitiers, quando estavam hospedados numa das hospedarias mais populares e bem frequentadas da região, a situação se complica, pois Isabelle passa a ser alvo das investidas do Duque de Vallombreuse, a quem demonstrações de desprezo e frieza atiçam a insistência perante a mulher enamorada. Vendo que nem bilhetes e nem joias a compram, ele resolve ir em pessoa ao ensaio de uma das peças para, ousadamente, investir num contato, mas é flagrado por Sigognac. Sem saber que este é na verdade um nobre, manda que os criados lhe dêem uma surra mas este, ajudado por Tirano e por Scarpin, derrota os enviados de Vallombreuse. Em resposta, envia um nobre como emissário e desafia o duque para um duelo, e o vence facilmente.

A briga dos dois vai ficando cada vez mais séria à medida que a trupe se desloca para Paris e o duque, cego de paixão, manda segui-los e paga para que não só raptem Isabelle, mas matem Sigognac. Ambas as tentativas são uma vez frustradas e, conforme a trama se desenvolve, mais personagens do submundo são apresentados ao leitor. Uma figura, no entanto, torna a aparecer em momentos essenciais do enredo: Chiquita, a espanholinha, que dentro do seu alcance, faz de tudo para proteger Isabelle. A personagem é, na verdade, uma das mais fascinantes do romance de Gautier: dona de uma personalidade ímpar, Chiquita desconhece classe, requinte ou palavras bonitas e fluidas para construir o seu discurso, mas seu olhar penetrante e sua sinceridade a tornam a mais autêntica das personagens do livro, e sua coragem e seu amor por Isabelle e Agostin a tornam, se é que possível, mais bela do que Zérbine ou Séraphine. É graças a ela que Isabelle é resgatada por Signognac e pela trupe de atores, quando Vallombreuse finalmente consegue armar um esquema para distrair os atores e sequestrar a moça. Num segundo duelo de espadas, Sigognac fere seriamente o duque e este, entre a vida e a morte, descobre que Isabelle é sua irmã, tal como o pai, ao chegar ao castelo após o confronto, lhe revela.

Como em todo romance leve e feliz, Vallombreuse se recupera e torna-se irmão amoroso e filho dedicado, Isabelle casa-se com Sigognac e, em segredo, restaura o castelo e compra de volta as terras que haviam sido vendidas ao longo das gerações, e o Barão de Sigognac, agora um governador de província, encontra enterrado, no terreno de seu castelo, um cofre repleto de ouro, joias e títulos que um antepassado havia enterrado há mais de seis séculos, antes de viajar para participar de uma cruzada da qual não voltara.

A leitura do romance vale, por si, pela clássica aventura de capa e espada, e pelas referências históricas e literárias que traz, como a descrição pictórica de Paris e dos vagabundos que vagavam pela Pont-Neuf, bem como das execuções na praça de Grève, ou os títulos de obras e de escritores famosos à época, como Ronsard e Hardy. Porém, mais do que referência ou a maestria literária de saber misturar teatro e romance tão bem como só um escritor de teatro poderia fazer, o autor é hábil para colocar, nas palavras dos atores, palavras de humor e cenas da vida pitoresca, como quando chegam a uma estalagem na qual o dono engrandece tudo quando na verdade quase nada tem a oferecer, bem como a crítica feroz à religião, como quando Tirano explica que atores não podiam ser enterrados em campo-santo (cemitérios de igrejas) porque a Igreja Católica proibia, por considerá-los perdidos. Esta era, aliás, uma das críticas mais ferrenhas de Gautier: a de que religião nada tinha a ver com a arte e, talvez devido ao tom crítico e cínico muito apropriadamente colocado nas falas dos atores, O Capitão Fracasso tenha sido publicado somente quando a atmosfera política estivesse mais propícia a tal leitura, numa prova de que até mesmo nas mais inocentes e convidativas leituras podemos encontrar reflexos da sociedade.

Fonte de informações sobre o autor: http://pt.wikipedia.org/wiki/Th%C3%A9ophile_Gautier

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Volume 48 - Oliver Twist - Charles Dickens

Dizem que a ocasião faz o ladrão. Em algumas vezes sim, em raras vezes não; é isso o que o narrador de Oliver Twist, o antepenúltimo volume da coleção Clássicos da Literatura Juvenil conta ao leitor.
Em meados do século XIX, numa cidade do interior inglês, um menino nasce em meio à miséria, de uma mãe que não se sabia quem era e que viria logo a falecer. Órfão e sem parentes conhecidos, o bebê é entregue aos cuidados da paróquia, que o coloca no orfanato, onde recebe o nome de Oliver Twist -- não por algum motivo especial, mas porque o bedel da casa havia chegado à letra T do seu "caderno de nomes" e, assim sendo, inventara-lhe o sobrenome Twist.

Oliver cresce em meio a um cotidiano de miséria e de violência contra crianças, comendo o suficiente para que não morra de fome de uma vez. Ali, faz amizade somente com um outro menino, tão vítima e franzino quanto ele. Por ser menor e por sorte do destino, um belo dia Oliver "sorteia" a ação de pedir mais comida no refeitório. A cena é, de fato, tristemente cômica: ele é levado aos mantenedores da casa que, fartando-se à mesa numa sala aquecida, vêem-se espantados com a ousadia do menor e, além de mandarem açoitá-lo para que aprenda a não ser "guloso" e inssurecto, ordenam que o Sr. Bumble, o bedel, ofereça-o como ajudante a qualquer um que apareça na porta da instituição, dando como recompensa ao "nobre cristão" que concordar em "educá-lo" a quantia de cinco libras.

De fato, Oliver quase cai nas garras de um limpador de chaminé, mas a benevolência do juiz, que na última hora repara na figurinha pequena, frágil, trêmula e à beira de um ataque de pânico, não permite que isso aconteça. O garoto então vai parar nas mãos do Sr. Sowerberry, um agente funerário compassivo, mas cuja esposa e empregados são impiedosos com o menino -- especialmente o adolescente Noah Claypole, que, vítima ele mesmo de violência, encontra em Oliver a chance de reproduzir a única coisa que aprendeu: a tirania.

Após muitos problemas na casa dos Sowerberry, Oliver resolve fugir e dirige-se a Londres a pé, passando, como espera o leitor, por muitas dificuldades para poder se aquecer e se alimentar. É nesta parte da narrativa que o autor inicia o questionamento de contaminação social, porque Oliver é "adotado" por um bando de ladrões juvenis, dos quais o velho judeu Fagin é o padrone.

Fagin é uma figura em que vale a pena deter a atenção: um sujeito idoso e malandro, aplicou muitos golpes durante sua vida criminosa e, mais do que isso, treinou gerações de pequenos bandidos para fazerem o mesmo para si e para ele. Porém, contrariando a expectativa do leitor, ele não é mau como, por exemplo, o padrone Garófolli, de Sem Família, com quem o velho Vitalis se recusa a deixar Renato. Fagin é bondoso na medida em que é possível sê-lo, dadas as condições em que vivem, naquela mansarda localizada no bairro pobre, onde dormem ele e tantos outros garotos. Os meninos devem arranjar comida, dinheiro, joias, carteiras, roupas, tudo o que puderem -- até mesmo lenços. Nesse sentido, o narrador realiza uma grande crítica, pois o leitor é capaz de perceber que, mesmo sendo um criminoso, Fagin é ainda menos mau e perigoso do que políticos e religiosos, ou seja, os homens considerados "benfeitores" que recebem do governo para cuidar dos pobres no orfanato mas que, na verdade, pouco repassam para o destino final.

Contudo, Oliver não é somente bondoso, mas ingênuo. Naturalmente inclinado ao bem e de caráter irrepreensível, ele não enxerga maldade no grupo que o acolhe e o alimenta, e não entende que o ato de retirar com agulha os nomes bordados dos lenços significa "reciclá-los" para que sejam usados ou vendidos. Muito menos entende que tudo o que possuem ali é motivo de roubo, e por isso torna-se motivo de galhofa no covil. É com este espírito que Jack Dawkins e Charley Bates, dois dos garotos mais espertos de Fagin, o envolvem em um roubo de livros, pelo qual, justamente pela inocência e pela ignorância, no sentido strictu da palavra, ele é preso e acusado. Novamente, esta é uma ocasião para o narrador criticar o sistema -- aqui, não a política ou a religião, mas o judiciário, porquanto o juiz abusa de seu poder e não reconhece erro em suas ações e julgamentos precipitados. Salva-se Oliver porque o livreiro chega no último momento para testemunhar que o garoto só tinha visto o roubo, e não executado, pelo que vira da cena através da vitrine da loja.

Um período de bonança acontece na vida do pequeno órfão, que é acolhido pelo rico e gentil Sr. Brownlow, que a ele curiosamente se afeiçoa, embora o amigo Grimwig desconfie de Oliver e o julgue igual a qualquer outro ladrãozinho da capital. O velhote se decepciona com Oliver quando este, mandado para a livraria a fim de pagar os livros, é raptado pela trupe de Fagin, graças à Betsy, ladra que não sabia das intenções de rapto de Fagin ao lhe contar onde o menino havia ido parar após o incidente do livro. Arrependida e querendo que Oliver tenha uma chance de ter uma vida diferente da desgraçada experiência que viveu, Betsy consegue encontrar um modo de avisar ao Sr. Brownlow que o menino está cativo por Fagin e seu comparsa, o violento Sikes, que também é companheiro de Betsy.

Algumas reviravoltas e subenredos acontecem na trama, como, por exemplo, Noah querer juntar-se a Fagin, Bumble casar-se com a matrona da paróquia e um médico pesquisar o passado de Oliver. Isso acontece depois de Sikes obrigar Oliver a entrar na casa do Sr. Brownlow para abrir a porta da frente, de modo a permitir que entrasse e roubasse o sobrado, Oliver denuncia o roubo e por isso leva um tiro dos donos da casa. Magoado com os acontecimentos, o Sr. Brownlow já não vivia ali, e Oliver acaba sendo deixado para trás para que a dona da casa tome conta dele. O médico que o cura se compadece de sua história e faz questão de encontrar o velho senhor para retirar a mácula do caráter do garoto perante o homem que havia sido tão bondoso com ele. Para isso, o Dr. Loberne procede a uma pesquisa sobre a vida do menino. Assim, enquanto Oliver se vê acamado, o leitor descobre que existe alguém muito interessado em manter sua vida no anonimato e na miséria, e que este alguém nada mais é senão Edward Leeford, meio-irmão de Oliver, por parte de pai, e herdeiro da fortuna deste, já que a segunda esposa havia sumido no mundo com a criança no ventre. Durante anos, Monks (pois este é o apelido do pária) havia subornado as pessoas para que Oliver se mantivesse esquecido, e rastreando o paradeiro do menino, chega mesmo a falar com Sikes e Fagin, mas as coisas não ocorrem como o esperado porque Oliver é novamente raptado por Sikes e, ao avisar o Sr. Brownlow do paradeiro do pequeno, Betsey é espancada até a morte pelo bandido e a polícia descobre o paradeiro de Sikes e de Fagin. Ao mesmo tempo, Oliver restitui sua liberdade, sua honra e seu dinheiro, posto que Leeford é pressionado por Brownlow, antigo amigo de seu pai, a conceder a Oliver o que é seu por direito de nascimento.

Oliver Twist vem, no século XIX, em defesa do pequeno órfão e da ideia rousseauniana de que o homem nasce naturalmente bom, mas a sociedade o corrompe -- a menos, é claro em raras exceções, como é o caso de Oliver (e talvez eu devesse me aprofundar na ideia de que os verdadeiramente bons nunca são corrompidos, mas seria uma longa resenha) --, num romance que, embora não seja exatamente realista, retrata de maneira muito crítica a sociedade londrina, a corrupção, a pobreza e a violência vigentes à época, principalmente no que concernia às crianças. Percepções como essa aliadas à ousadia da denúncia e à arte de saber denunciar valeram, para Dickens, a eterna glória de escritor essencial da era vitoriana.

Fonte de informações sobre o autor: http://pt.wikipedia.org/wiki/Charles_Dickens

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Volume 47 - A pequena Fadette - George Sand

George Sand cresceu no campo. No quintal de casa, em Nohant, isolava-se; na escola, escrevia e montava peças teatrais, sempre com sucesso. Em seus anos de formação, esteve com a avó materna, única parente que lhe restava e que foi responsável pela sua criação. A situação mudou com a morte da avó e um casamento realizado ainda aos 18 anos. Em Paris, nos anos 1830, conheceu a boemia, a revolução, a literatura e os movimentos sociais. Teve filhos, teve amantes, publicou em panfletos, e adotou o que algumas pessoas definem como socialismo místico.

Tal resumo seria até esperado se George Sand fosse, como o nome diz, um homem, mas não era: tratava-se de uma moça cujo nome era Amandine-Aurore-Lucile Dupin -- um nome bem feminino e delicado, aliás --, e que, quando criança, divertia-se com seu passatempo solitário de brincar nos jardins de Nohant com seus amigos invisíveis. No internato, agradava-lhe a reclusão e chegou mesmo a pensar em ser freira. A convivência com a avó deu-lhe o tempero pela vida e a paixão pelo campo que ela levaria consigo mesmo morando nas cercanias da capital francesa.

Assim, a escritora de pseudônimo masculino, que deu muito o que falar nos salões da corte e nos círculos sociais que frequentava, devido à sua independência e à sua relação com Chopin, não abandonou o tema rural mesmo após todas as revoluções sofridas no país. Ao contrário, aliou-a à causa social e, desse casamento, surgiu A pequena Fadette, que a coleção Clássicos da Literatura Juvenil apresenta em seu quadragésimo-sétimo volume.

Na região da Cosse, em meados do século XIX, uma próspera família de fazendeiros recebe o presente de dois filhos gêmeos idênticos: Sylvain, o primeiro a nascer, e Landry. A superstição do campo leva a parteira a aconselhar aos pais que separem os gêmeos tão logo quanto possam, levando-os a lugares diferentes durante o dia, vestindo-os de forma diversa e repreendendo-lhes ou elogiando-os em momentos separados. O objetivo é não torná-los tão unidos como dita a experiência, mas os pais ignoram o conselho e, vendo os filhos tão felizes, esquecem do que a mulher lhes diz. As crianças se desenvolvem e a personalidade aflora. Sylvinet é ligeiramente mais franzino, dado às tarefas caseiras e muito mais ligado à mãe, enquanto Landry se interessa pela vida no campo, é brincalhão e mais ligado ao pai. Isso não os impede de serem, como se diz, unha e carne. Eis, porém, que chega o dia em que o compadre Barbeau precisa enviar um dos gêmeos ao compadre Caillaud, seu vizinho, para que lá trabalhe traga a renda para a família numerosa, porque os Barbeau têm muitos filhos e tantas mãos não são assim necessárias no pedaço de terra que possuem. Após muito pensar com a mulher, decide enviar Landry, por crer que este superará a separação. A reação dele é de resignada aceitação diante da promessa de vir para casa aos domingos, mas Sylvinet adoece ante a possibilidade. Para poupar-lhe a cena de despedida, Landry sai de madrugada, mas o irmão entende que ele sequer quis se despedir.

Na casa dos Caillaud, Landry vai se acostumando com a rotina do trabalho, apegando-se ao campo, à terra e aos animais, aprendendo a brincar com os amigos e a olhar e paquerar as moças da vila, apaixonando-se por Madelon, a sobrinha do compadre Caillaud. Sylvinet, por outro lado, percebendo que o irmão passa a se interessar por outras coisas e outras pessoas, torna-se cada vez mais soturno, solitário, ensimesmado e deprimido. Afasta-se das pessoas, isola-se no campo e faz questão que todos vejam o quanto ele está sofrendo pelo irmão que trai o seu sentimento, pois é esta a visão que ele tem da situação. Chega mesmo a fugir de casa na madrugada de um domingo só para que não veja o irmão e para que sintam sua falta. Sem dúvida, Landry sai em busca do irmão quando não o vê em casa, ao chegar na casa de sua família, e não o encontra sozinho.

Este é o ponto da narrativa em que a personagem-título entra na história, Fadette, uma menina franzina, tida como feia, e maltrapilha, cruza o caminho de Landry, espezinhando-o por ser um rapaz metido que não liga para ela e para o irmão caçula dela. Apelidada de Gralha pela tez morena de sol e pelos modos espevitados como os de um menino, Fadette -- ou Françoise Fouchon, como saberemos ao ler o restante da história -- foi abandonada pela mãe junto com o irmão mais novo, Jeanet, para que a avó os criasse. Ela mesma sendo uma velha que vivia num casebre afastado do vilarejo e conhecedora das ervas e plantas medicinais da floresta, sobrevive com base na venda dos unguentos e remédios que fabrica com as plantas que ela ensina a menina a reconhecer, colher e trabalhar. A vida é dura para ela, que sofre com o preconceito e a superstição do vilarejo e, marginalizada como é, não tem paciência com os netos, em quem desconta as agruras da vida, enquanto trata de criá-los na vida mais frugal possível.

Este é o quadro em que vive a menina quando encontra Landry desesperado em busca de Sylvinet. Como forma de devolver o desprezo recebido deles durante anos, faz Landry prometer que lhe dará o que for em troca de uma informação segura de onde possa encontrar o irmão gêmeo antes que a tempestade prenunciada caia. Em casa, Sylvinet percebe a preocupção de todos, e isso lhe fortalece a forma como consegue lidar com a família e com sua carência.

A situação permanece assim por meses a fio e, um ano mais tarde, quando Landry voltava da casa dos pais para a Priche, a fazendo do compadre Caillaud, ele se perde. Novamente, é Fadette quem o ajuda, lembrando-o da promessa feita a ela há um ano. Desta vez, ela lhe cobra: como forma de expô-lo socialmente, faz com que ele prometa esperá-la na porta da igreja no dia da quermesse de São João, e dance três valsas com ela a primeira, a do meio e a última do dia. Embora ele tenha prometido à Madelon que com ela ficaria, ele cumpre a palavra e dança com a menina. O falatório é inevitável e Madelon ressente-se da rejeição, preferindo a companhia de outros rapazes. Daí para as conversas entre Fadette e Landry não decorre muito tempo, e o rapaz, aprendendo a conhecer a moça, explica-lhe por quê ela é malquista, ao passo em que ela devolve os comentários não como represália, mas para mostrar que ele também tem defeitos, como o de esnobar sem sequer dar a chance de a pessoa mostrar o seu valor. Aos poucos, conhecem-se e apaixonam-se, e Sylvinet, desconfiando do irmão, que chega aos domingos cada vez mais tarde e parte cada vez mais cedo, descobre o namoro e torna a definhar, embora tenha prometido interessar-se mais pelas tarefas que o pai lhe dá durante a semana. Mantém a fidelidade ao irmão e nada conta aos pais, que vêm a saber do interesse romântico do filho pela moça "de reputação duvidosa" por meio da fofoca de Madelon, que também descobre o romance.

Tendo morrido a avó, Fadette decide ir-se embora do vilarejo para se empregar numa casa de família em outro lugar e, ali, aprender a ser mais recatada, mais prendada e mais feminina. Volta dois anos mais tarde, embora nesse período encontre Landry uma vez, e renova sua jura de amor ao rapaz, que faz o mesmo a ela. A situação se resolve não pelo amor, que estaria fadado à tragédia se dependesse só dele, mas ao dinheiro, porque a avó reservava cada centavo que podia pensando no futuro dos netos, e Fadette se descobre dona de uma fortuna suficiente para ter propriedades. Sem que Landry sequer desconfie de sua riqueza, ela procura o pai do rapaz e lhe mostra a fortuna, pedindo-lhe para que a ajude a contá-la e para que a aconselhe a melhor forma de aplicá-la. Quando o pai dos gêmeos vê a soma, aconselha-se com advogados e, além disso, vai até a patroa de Françoise para saber como a moça havia se comportado naqueles dois anos em que ali havia trabalhado. Uma vez entendendo que a reputação dela sempre se deu devido ao abandono da mãe, que o fez por causa de um homem, e à reputação da avó, que nada mais era do que conhecedora da botânica e da química das plantas, o compadre e a comadre Barbeau dão o consentimento aos jovens para que se casem.

Tudo estaria bem e o livro seria um típico romance romântico francês do século XIX se não fosse a figura de Sylvinet e o modo como ele usa a saúde e seus ataques para controlar a família e reinar sobre as decisões tomadas ali. Ainda nisso Fadette, também conhecedora das doenças e das ervas, intervém. Sem que Sylvinet saiba, vai ao quarto dele durante o sono do doente e ministra remédios e a imposição das mãos sobre o peito e a fronte, que acabam por acalmá-lo e curá-lo. Quando ele descobre que ela esteve em seu quarto e que ela se casará com Landry, entende o ato como alta traição e adoece novamente. Este é o momento mais espiritualista do livro, pois é quando Fadette vai até o rapaz e explica que a doença dele está no espírito mesquinho, egoísta e infantil, que jamais entendeu que todas as atitudes do irmão visavam ao seu bem-estar, ainda que fosse o afastamento. Por fim, ele aceita o casamento e resolve alistar-se no exército, onde chega a capitão em campanhas napoleônicas e morre em batalha, condecorado.

A cena da conversa definitiva entre Sylvain e Françoise e das sessões de concentração e imposição de mãos é detalhada o suficiente para que o leitor e a leitora vejam ali uma sessão espírita acontecendo, mesmo que estas não sejam as palavras claras a autora. Este era, de fato, um dos movimentos em voga em meados do século XIX, e não só George Sand, mas Victor Hugo, Edgar Alan Poe e outros tantos escritores americanos, ingleses, franceses e alemães se engajaram na doutrina. Nesse sentido, A pequena Fadette é uma inovação literária porque consegue, de forma bem coesa e coerente, retratar o quadro social rural da época, o sistema de trabalho, as relações familiares e sociais pequeno-burguesas e valores espirituais que se traduzem naquilo que nunca sairá de moda: amor, amizade, fidelidade, respeito pelo outro e compaixão. Só por isso, sem contar o estilo envolvente do narrador, já vale a pena a leitura.

Fonte de informações sobre a autora: http://pt.wikipedia.org/wiki/George_Sand

sábado, 22 de janeiro de 2011

Volume 46 - O corcunda de Notre-Dame - Victor Hugo


Em 1831, após décadas de turbulência política, Paris estava sob a falsa impressão de que tudo estava bem, e que o povo estava satisfeito com os resultados obtidos pela Revolução Francesa e, depois, pelo governo de Napoleão Bonaparte. Mal sabia o país que eles estavam somente e alguns anos de distância de 1848, quando estourou a Comuna de Paris. Numa palavra, a Europa -- e a França, em grande parte -- sofreu com as numerosas mudanças de configuração política do século XIX. Nos salões, as conversas giravam em torno de futilidades, pois o medo de que se falassem coisas "sérias" demais que justificassem uma turbulência política e social era grande. Reduzia-se o mundo às aparências, então.
Talvez, deva-se a esse contexto o surgimento de O corcunda de Notre-Dame, conhecido em francês como Notre-Dame de Paris. Publicado naquele ano, o romance de Victor Hugo -- a coleção Clássicos da Literatura Juvenil publicou, em 1973, dois romances seguidos de Hugo -- retorna ao ano de 1482, quando Paris era governada por Luís XI. Naquela época, a cidade não contava com uma polícia organizada, e a guarda era feita por fidalgos que apoiavam o rei. Em meio a uma população de pobres, maltrapilhos, abandonados, ladrões, prostitutas e ciganos, Paris abrigava a realeza, e seu centro religioso e político ficava na ilha em meio ao rio Sena. Ali, localizava-se o Palácio da justiça, onde o rei ficava quando saía de sua casa, e a Catedral de Nossa Senhora (a homônima Notre-Dame de Paris).
Era na catedral, em frente à praça principal, que se encontravam todas as camadas sociais. Ali o rei frequentava a missa, ali as pobres mães e os covardes pais de filhos ilegítimos depositavam seus filhos na roda dos enjeitados. Foi nessa roda que, um dia, apresentaram uma criança de 4 anos, com defeitos físicos, que mal se comunicava. Tinha uma corcunda grande, cabelos ruivos espetados numa cabeça desproporcional ao corpo, braços muito compridos e pernas arqueadas. Apiedando-se do garoto, o pároco Claudio Frollo tomou-o como filho e o criou dentro da catedral.
A história tem início quando um escritor tenta encenar um auto para o rei -- aliás, bastante irônico, da parte do autor, já que o auto era em si uma representação metonímica da situação econômica, política, social e religiosa de Paris --, mas os estudantes da universidade de Sorbonne não o permitem, porque em seu único dia de "folga" das restrições educacionais e morais, aproveitavam e faziam a folia de reis, em que elegiam aquele que fizesse mais careta como rei do povo e com ele desfilavam em torno da praça. Sucede que Quasímodo, o jovem corcunda calado, participa das folias e, por sua feiúra, é eleito o rei dos bobos e do povo, e se vê num papel invertido: ao invés de fugirem dele, reverenciam-no, ainda que às risadas, e o leval em cortejo. Durante o passeio, encanta-se com Esmeralda, a jovem cigana que dança e faz com que sua cabra realize truques, e vai preso justamente por tentar protegê-la dos insultos que ela sofre por ser cigana. É importante esclarecer ao leitor e à leitora que, além de todo o preconceito contra os ciganos que ainda existe hoje, somava-se à lista o de que eles eram bruxos e mantinham pacto com o demônio.
Numa confusão muito grande, Quasímodo é preso pelo fidalgo Febo de Chatêaupers, e Esmeralda se vê apaixonada pelo seu salvador. O jovem rapaz, porém, nada vê além da beleza de Esmeralda, e nada quer além de aproveitar-se da inocência da jovem, já que ele mesmo está comprometido com uma prima sua. Nesse ínterim, o poeta fracassado se vê preso, fugido, condenado à morte por ladrões, salvo por Esmeralda, e então solto novamente.
As ligações entre as personagens são esclarecidas à medida que a trama evolui, e o narrador revela que Esmeralda não sabe de sua origem verdadeira, porque quando era pequena foi roubada pelos ciganos. Mesmo assim, continua em bsuca da mãe, e apresenta-se de vila em via com sua cabra. Naquele lugar, duas pessoas em especial a odeiam: uma velha mulher penitente, que procura sua filha roubada pelos ciganos há muitos anos, e o pároco Claudio Frollo, que se apaixona perdidamente por ela e acredita que isso acontece por obra do diabo. Claudio tenta a todo custo fazê-la apaixonar-se por ele, mas uma vez que a cigana está perdidamente apaixonada por Febo, suas tentativas são em vão. Sem que o poeta saiba, Claudio o usa para que a cigana seja presa por feitiçaria e seja enforcada.
Quando Esmeralda é colocada na praça, Quasímodo salta da torre da catedral e a resgata, levando-a para o interior da igreja. Naquela época, aquele território era como a Suíça, como uma embaixada, e ninguém tinha o direito de tirá-la de lá -- nem Frollo, nem os ladrões, nem os ciganos, nem mesmo o rei. Quasímodo cuida dela com desvelo e mantém distância para que não a assuste, mas não é o bastante: cego pela loucura e pela paixão, Frollo a tira da igreja e, rejeitado pela última vez, entrega-a à guarda real.
O final é previsível: a velha penitente descobre que a cigana Esmeralda é sua filha e se arrepende por tê-la odiado e incentivado sua morte, e morre; Esmeralda é enforcada; Febo casa-se conforme o previsto; e Quasímodo, o herói marginalizado de Hugo, que com esta obra acusa a sociedade e a igreja, desaparece para ser encontrado, dois anos mais tarde, morto, ao lado de Esmeralda, no cemitério. Há, ainda, todo um contexto de jogadas com os malandros da cidade, que desempenham um papel muito importante na trama: são eles que, na tentativa de libertar a cigana, incendeiam a catedral de Paris, mas esta é uma subtrama que eu deixo ao leitor e à leitora para que a interpretem. A esta altura do blog, sabem qual caminho trilhar para que possam compreender a magnitude da obra de Victor Hugo que, com esta obra, representou de forma majestosa e muito crítica a situação vivida na sua época, recorrendo para isso ao expediente de uma narrativa situada no século XV. Novamente, esta é uma narrativa mais "séria" dentro da coleção, mas, ao contrário da anterior, creio que encontra seu lugar dentro da série de leituras sugeridas por esta série de publicações da literatura universal adaptada aos jovens.
Fonte de informações sobre o autor: http://pt.wikipedia.org/wiki/Victor_Hugo

Volume 45 - Os trabalhadores do Mar - Victor Hugo

Os trabalhadores do mar é uma obra diferente de várias outras que tratam do mar na coleção Clássicos da Literatura Juvenil. Se o leitor espera uma luta encarniçada pela posse de um navio, ou um naufrágio épico em que o herói sobrevive e constrói uma civilização, é melhor que mude suas expectativas. Publicado originalmente em 1866, ele é um marco não só na forma como o escritor Victor Hugo (grande imortal da Academia Francesa de Literatura) retrata o herói romântico, como também demarca a posição política do autor, que estava então exilado na ilha de Guernesey.

De fato, é nesta ilha que tem lugar a história do solitário Gilliatt, órfão de mãe e cujo pai é desconhecido, e que mora numa casa tida pelos moradores locais como assombrada, próxima a uma encosta do mar, afastada do centro do vilarejo. Exímio pescador e homem do mar, porém mal compreendido pela sociedade local, que é muito supersticiosa, vive para si e para seu amor platônico, a jovem e bela Déruchette, sobrinha do mais famoso e bem-sucedido homem da região: o Mess Léthierry.

Mess Léthierry é dono do Durande, o primeiro barco a vapor da região que, justamente por possuir velocidade, cumpre a viagem no Canal da Mancha com mais velocidade e consegue, portanto, manter um comércio mais próspero com a Inglaterra. Consequentemente, a atividade faz de Mess Léthierry (e o autor explica que "Mess" é o segundo mais alto título de alguém não-nobre a que um homem pode almejar naquela ilha) o homem mais rico da ilha. Em dias mais antigos, havia confiado em seu sócio, mas este o traíra e levara consigo a fortuna de ambos. Foi Durande, o barco que ele mesmo construiu, que lhe trouxe a glória. Por isso, tem pelo barco o mesmo amor que tem por sua sobrinha, a quem educa para ser uma esposa dedicada e muito doméstica. O velho homem sonha ter para capitão do barco um genro que seja apaixonado por Dérouchette e tão bom homem do mar quanto ele, que possa amar Durande com a mesma intensidade. Enquanto isso não acontece, ele deixa Durande a cargo do capitão Clubin, tido como lobo do mar, ou seja, extremamente experiente e sem medo das águas repletas de rochedos da região.

Os destinos de Mess Léthierry, Déruchette e Gilliat se cruzam quando o capitão Clubin leva a embarcação ao mar em dia de tempestade e entra num nevoeiro, chocando-se com os rochedos escarpados que coalham o mar em torno da ilha. O desesperado dono do barco entende que Clubin sucumbe ao mar e ouve dos marinheiros que a embarcação está parcialmente destruída, mas seu motor se encontra intacto, preso entre dois altos e afiados rochedos. Sem esperança, oferece a mão de sua sobrinha ao corajoso homem que salvar a Durande. Escutando sob a janela, Gilliatt empreende a viagem à embarcação e, durante semanas, enfrenta o sol inclemente, a sede, a fome, a febre, os tremores e o cansaço, e consegue, construir uma espécie de estrutura elevadiça com a madeira do barco, com a qual consegue içar o motor e colocá-lo em sua chalupa.

A luta que o homem enfrenta contra as intempéries já seria o suficiente para marcar o ponto de vista de Hugo sobre a relação do homem com a natureza, mas o toque sobrenatural do livro é marcado pela presença do monstro marinho que ataca Gilliatt. Este é o momento em que o leitor encontra uma luta encarniçada do herói pela vida, e é quando grande parte do mistério do romance em torno do sócio desaparecido de Mess Léthirry e de Clubin são desvendados. De uma forma quase miraculosa, Gilliatt mata o polvo que o ataca, e consegue voltar à ilha. Sujo, descabelado, doente, magro, com a pele descascando, exausto, com fome, e com suas energias drenadas, consegue amarrar sua chalupa atrás da casa do tio de Déruchette, e quando este descobre ali a alma de sua embarcação -- o que lhe salva a posição política e a fortuna --, reconhece Gilliat perante a sociedade local como seu salvador e concede a mão de Dérouchette a ele.

As histórias de Victor Hugo, no entanto, não são mais tão exageradamente românticas como as que inauguraram o movimento romântico em 1802: são marcadas pelo herói solitário que sofre o preconceito social por não se encaixar no perfil do cidadão médio, e seu fim não é feliz. Gilliatt descobre que Déruchette, a quem ama há anos, silenciosamente, ama o jovem reverendo inglês Ebenezer Caudray, que havia chegado há poucos meses em Guernesey, e é correspondida. Sua decisão é, então, mais heróica do que o leitor da época poderia imaginar: ele dá a ela o baú de enxoval que sua mãe lhe deixara como herança para dar à sua futura esposa, providencia com o pároco mais velho o casamento dos jovens apaixonados sem que Mess Léthierry o saiba e os vê partirem no navio Cashmere, já acomodado em uma pedra recortada numa encosta, cujo formato é de uma cadeira e onde a maré encobre quando o dia anoitece. Ali, sentado e sozinho, espera o mar chegar e cobri-lo, pois para ele, socialmente marginalizado e eternamente infeliz porque sua amada não o ama, o que resta é o mar, e a ele se entrega definitivamente.

Em sua época de lançamento, o tom político, o entrelaçamento de histórias de amor e questões políticas e de dinheiro, como é o caso da fortuna de Mess Léthierry recuperada por Gilliatt, deram o ar de modernidade do romance, e ele se tornou, anos mais tarde, motivo de peças de teatro e de produções televisivas. O que mais deve chamar a atenção do leitor e da leitora é, no entanto, a mudança que ocorre de um movimento romântico em direção a um movimento mais político, arraigando a cultura literária no dia-a-dia da sociedade, mostrando os afãs e as mazelas dos pobres e dos camponeses, como ocorria nesse período de transição em que a sociedade começava a acompanhar a literatura tida como realista -- Madame Bovary, por exemplo, é de 1857.

Os trabalhadores do mar é, sem dúvida, um clássico da literatura universal, mas talvez, pelo seu conteúdo mais adulto e pelo seu tom mais formal, ainda que na tradução, não devesse figurar na coleção ora em apreço. Uma vez que nela se encontra e tendo em vista a experiência do leitor com a literatura de aventura e a literatura oitocentista, vale a pena sua leitura.

Fonte de informações sobre o autor: http://pt.wikipedia.org/wiki/Victor_Hugo

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Volume 44 - A ilha misteriosa - Júlio Verne


A capa do livro parece mais pertencer a Cinco semanas em um balão, mas este é de fato A ilha misteriosa, romance de Júlio Verne publicado em 1874.
A história tem início no ano de 1864, quando os Estados Unidos ainda estão combatendo na Guerra Civil, e 5 homens do norte são feitos prisioneiros pelos soldados do sul. Presos em Richmond, eles conseguem a façanha de fugir através de um balão que seria usado para festividades, mas devido às tempestades, caem em pleno mar do oceano Pacífico, perto de uma ilha desconhecida.
O primeiro "mistério" da ilha se dá quando os náufragos encontram seu quinto elemento, dado como morto, em um lugar protegido, sem que sequer este se dê conta de como havia ido parar ali. Este é, na verdade, o engenheiro Cyrus Smith, o membro mais importante para a sobrevivência e a qualidade de vida de todos na nova terra. Com um conhecimento em engenharia mecânica, em ciências químicas, biológicas, naturais e em física, Smith e os outros homens -- o marinheiro Pencroff e seu protegido, o rapaz Harbert, o repórter Spillet e o ex-escravo Nab, que cresceu servindo a Cyrus -- conseguem edificar construções para habitação e cuidado com animais, plantar sementes, fundir ferramentas, construir diques, e até elevadores.
As coisas, na verdade não se dão de maneira tão tranquila, e tampouco são rápidas. Na exploração que fazem da ilha, nomeiam-na Ilha Lincoln, em homenagem ao homem que promovera o movimento de libertação dos negros na América do Norte, e descobrem que o mar é habitado por criaturas desconhecidas, que colocam a vida dos habitantes da ilha em risco. Mais uma vez, eles e o cachorro Top (que viera também no balão) são misteriosamente salvos, e continuamente, ao longo dos meses, são ajudados sem que saibam quem ou o que está por trás das ações. Ora eles vêem voltar o barco que sumira com a maré, ora conseguem salvar um náufrago numa ilha perto daquela, por obra de aviso da existência daquele homem (cujo nome é Ayrton e havia sido abandonado como punição a crimes), ora conseguem remédio para curar a febre sazonal de um dos integrantes da equipe.
A maior ajuda, e a que literalmente salva a vida de todos, se dá quando, meses após o naufrágio de um navio-prisão e a luta que travam contra náufragos bandidos para defenderem seu território e sua sobrevivência, eles acabam por encontrá-los mortos na orla, logo após terem encontrado Ayrton, que havia sido preso pelos criminosos numa caverna, em recuperação na casa do curral, onde o resgatado costumava viver. Mais algum tempo se passa e eles finalmente recebem uma mensagem no telégrafo que Cyrus havia construído. Diz a mensagem: "venham até a casa do curral". Descobrem que o fio se estendia pela praia, passando o rio, descendo o terreno e indo até uma caverna no mar. Ali, descobrem um submarino e, finalmente, o autor de todas a ajuda que haviam tido ao longo de cinco anos. Trata-se do capitão Nemo, que não havia morrido no redemoinho marítimo do final de 20.000 léguas submarinas, mas ido parar nesta ilha e ali encalhado. Já idoso, encontra-se às portas da morte e chama os homens para duas finalidades: entregar-lhes um cofre com riquezas para que possam se reintegrar à sociedade tão logo consigam sair da ilha e pedir ao engenheiro e a seus companheiros que o sepultem no fundo do mar junto com o Nautilus.
Há, ainda, uma informação preciosa que ele compartilha somente com o engenheiro: a ilha, vulcânica por natureza, deverá sofrer um grande abalo pelo vulcão em vias de entrar em erupção, e por isso deverá sumir. Por isso, ele o orienta a construir uma embarcação, tomar sues homens e retornar à pátria antes que sucumbam na ilha, e assim é feito. Como o leitor e a leitora podem esperar, tudo é cercado de aventura e o sucesso das ações são sempre conseguidos por um triz, mas o final feliz é garantido.
Como sempre, a genialidade de Verne é aqui colocada, mas não de maneira marcante como nos outros livros. Numa coleção repleta de histórias de naufrágio como é esta de Clássicos da Literatura Juvenil, a história repete bastante a estrutura de Robinson Crusoé e de Robinson Suíço, e os detalhes de construção da ilha chegam a cansar o leitor. Mesmo assim, a leitura vale como desfecho da história iniciada em outro livro. Aqui, o narrador coloca Nemo contando sua história, sua origem e suas desventuras, até negar sua identidade e sua pátria para se tornar o capitão dono dos mares. Este, porém, é um segredo que só aqueles que se aventurarem a ler a obra descobrirão.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Volume 43 - Carlos Magno e seus cavaleiros

Até ter iniciado a leitura de Carlos Magno e seus cavaleiros, tudo o que eu fazia era olhar para o volume 43 na minha estante e imaginar que livro seria aquele. De início, parecia-me algo no estilo das lendas arturianas, mas eu imaginava que fosse algum romance francês do início do século XIX em que algum autor tivesse recontado a história do Rei Carlos e de seus doze pares de França.

Ora, muito grata foi minha surpresa ao descobrir que os editores da coleção Clássicos da Literatura Juvenil nos presentearam com nada mais, nada menos do que a adaptação traduzida de A canção de Rolando, pois este é o título dos originais que foram aqui publicados sob o nome do volume que agora lhes apresento. Àqueles que não a conhecem, trata-se de um poema épico muito grande, uma canção de gesta com quatro mil versos e nove versões conhecidas, e cuja autoria é desconhecida, embora seja atribuída a um certo Turold. Em tempo: gesta, do latim, significa "de aventura", e então as canções de gesta, tão comuns no Trovadorismo, são aquelas que narram as grandes aventuras e feitos dos heróis. Na Espanha, por exemplo, há Amadis de Gaula (há quem diga que é Portugal), e o livro Dom Quixote, já tratado na quinta resenha deste blog, é senão uma sátira de tais canções e histórias dessas novelas de cavalaria, numa época em que a própria cavalaria já andava decadente demais e quase desaparecida.
A principal narrativa do livro é, como se espera, a vida e a morte de Rolando, sobrinho do Rei Carlos Magno e seu paladino predileto, embora outros sejam tão louváveis quanto Rolando. Ali encontramos Reinaldo e seu amor pelo cavalo Baiardo, que ele mesmo conquistou; Ogier, o rei dinamarquês; Olivério, primo de Rolando e seu melhor amigo, que morre com ele em batalha; Florismaldo, que se casa com Flordeliz (o nome, aqui, refere-se à flor-de-lis, símbolo da França); e Astolfo, o homem mais bonito e querido das fadas, dentre outros pares de França. dizia-se "pares" porque eram iguais entre si, não sendo um mais querido do que o outro.
Enquanto o narrador trata das aventuras de Rolando em busca de sua honra e de se provar um bom cavaleiro para o rei, entremeiam-se na trama histórias fantásticas de feiticeiras que conquistam e encarceram os cavaleiros em castelos mágicos, lindos, feitos de alabastro, ouro, e cristais, contornados por jardins que a língua humana não conseque descrever, dentro de ilhas distantes protegisdas pelo bravio oceano e por míticos monstros marinhos, e as aventuras a que tantos homens e donzelas corajosas e guerreiras se submetem para salvar seu respectivo amado. Nesse sentido, as histórias lembram bastante aquelas narrativas das pequenas histórias de As mil e uma noites, e também, como não podia deixar de ser, das lendas arturianas. Há até mesmo uma história em que uma heroína encontra, em sua peregrinação para o resgate de seu amado Rogério, a caverna que serve de túmulo a Merlim, guardado ali pela feiticeira Melissa, que a ajuda. Há, também, a história de Ogier, preso por duzentos anos na ilha de Avalon, por Morgana -- e, aqui, ela é tão má quanto é sua caracterização nos livros de Arthur, embora agora seja linda --, e que, no estilo sebastianista português, retorna à França no momento em que ela mais precisa de ajuda para derrotar os exércitos sarracenos (leia-se muçulmanos) que então tomavam conta da França, para depois voltar a Avalon, até que outra situação extrema demande a volta imperiosa do herói.
Dentre as várias histórias maravilhosas, chamou-me a atenção a de Astolfo e o resgate do juízo de Rolando. Este encontrava-se há muito tempo perdido e louco, como um selvagem, vagando em um bosque, pois que perdera seu juízo ao descobrir que a mulher que amava, a feiticeira Angélica, de Catai (era assim que se dizia "China", na época), havia se casado. Em suas aventuras com o hipogrifo do feiticeiro Atlante, Astolfo sobe tanto aos céus que vai parar num mundo que fica entre a Terra e o paraíso. Ali, encontra o profeta Elias e João Batista. Elias explica-lhe que ele, por poder voltar à Terra, pode restaurar o juízo de Rolando, porque quando os homens perdem o juízo, este evola-se em fumaça e sobe ao céu, indo parar na lua. Numa caruagem de fogo, Astolfo segue com Elias até a lua e descobre que ela é como a Terra, com cidades, torres e castelos. Num deles, encontra uma sala repleta de estantes. EM cada prateleira, há um vidro onde se lê o nome de cada homem ou mulher, e cada vido está mais ou menos cheio do juízo da pessoa em questão -- depende do quanto a pessoa ainda é sábia e sã ou enlouquecida. Encontram o vidro de Rolando repleto até a boca, e o do próprio Astolfo, na metade. Elias explica-se que ele pode pegar o seu vidro e aspirar a fumaça para recuperar aquela parte do seu juízo. Novamente muito sábio, Astolfo pega o vidro de Rolando e o protege, e desce dali para primeiro combater na Abissínia e, depois, resgatar Rolando do bosque e, à força, fazê-lo aspirar novamente todo o juízo perdido. Ali na lua, Astolfo também conhece um lugar repleto de todos os tipos de objetos, inclusive uma coroa, jogados a esmo, e Elias explica-lhe que ali é o lugar para onde vão todas as coisas desaparecidas do mundo e que ninguém sabia explicar onde tinham ido parar.
Assim como em outras narrativas lidas ao longo deste ano, esta experiência mostra que a coleção traz ao leitor narrativas-mestre que deram origem a muitas histórias famosas. Esta, por exemplo, com este episódio de Astolfo, remete sobremaneira aos pensamentos encapsulados pelo professor Dumbledore, ou as profecias guardadas nas estantes do Ministério da Magia, em Harry Potter e a Ordem da Fênix, ou ainda à Sala Precisa, onde Harry esconde o livro de poções e onde desesperadamente busca o diadema (isto é, a coroa) de Rowena Ravenclaw.
No entanto, mais do que servir como base para a criação literária dos séculos recentes, narrativas como Carlos Magno e seus cavaleiros trazem o contexto histórico e social de formação europeia, que é muito importante para que nós possamos entender até mesmo como se formou a nossa cultura e a nossa tradição literária. País herdeiro desta cultura que somos, compreendemos, através dessa narrativa, a amplitude da força religiosa e política da Igreja Católica na formação de nações como a França e o domínio de países como a Espanha, que durante muito tempo esteve sob o comando dos muçulmanos e, quando partiu em busca da conquista da América, tinha Isabel de Castela e toda a política de caça às bruxas -- ou aos sarracenos e judeus -- como afirmação da fé católica. Romancizado como deve ser, a história contada nas versões da canção de Rolando, como nesta que o leitor e a leitora podem ler atualmente, não deixa de trazer o aspecto histórico mas, acima de tudo, num mundo em que tudo é entretenimento, ou escape, ou desmanche, torna-se mote para diversão e distração.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Volume 42 - Os piratas da Malásia - Emílio Salgari

Emílio Salgari, escritor italiano que viveu na virada do século XIX para o século XX, aparece pela terceira vez na coleção Clássicos da Literatura Juvenil, agora com a história de Sandokan, famoso líder dos piratas, conhecido como Tigre da Malásia (Tigre da Malásia é, aliás, o primeiro livro em que Sandokan aparece, mas não foi publicado nesta coleção).

O fiel leitor da coleção abre as páginas do livro já preparado para a série de aventuras e intrigas que a narrativa traz, e não é decepcionado. De fato, o livro já tem início com a chegada de um servo indiano e sua jovem senhora enlouquecida pelas experiências traumáticas e pelo sumiço do noivo, e a busca que Sandokan empreende à procura do moço. Isso porque a moça é prima de sua finada esposa, e ele havia prometido à mulher que a protegeria.

A procura pelo rapaz indiano é longa e toma grande parte do livro. Envolve desde espionagem, pilhagem de navios e experiência de quase-morte à la Julieta (sim, aquela que toma um remédio para se fingir de morta, na peça de Shakespeare) a naufrágios, prisão, disputas, lutas e resgates de prisioneiros. Nesse ínterim, o leitor é convencido de que, no caso de Sandokan, pirataria não é para realizar maldade e tampouco somente visa à riqueza. Ele o faz para proteger amigos e porque encontrou na pirataria um modo de continuar a reinar, uma vez que fora um rajá e teve sua família assassinada antes de ter tido seu poder sobre a ilha de Bornéu usurpado. Além disso, é através de seus feitos que consegue restabelecer a ordem na região, desafiando o rajá inglês James Brooke, que toma o poder para si ao destituir um rajá local, realizando assim uma ação semelhante àquela sofrida por Sandokan. Ora, acontece de, durante o restgate do indiano, Sandokan conseguir libertar o rajá preso, atacar a ilha de Sawarak e destituir de fato o poder de Brooke. Porém, como herói que é nesta história, e sendo ele dono dos valores morais que casam com os feitos heróicos, o Tigre da Malásia liberta Brooke e o aconselha a fugir antes que o jovem rajá libertado retorne e reclame sua cabeça.

De certa maneira, a estrutura de Os piratas da Malásia se assemelha bastante à daquela de O corsário negro. Falo, particularmente, de personagens que tiveram suas famílias assassinadas e cuja personalidade é misteriosa e muito reservada. Assim se apresenta tanto Emílio de la Roccanera quanto Sandokan. Do mesmo modo, ambos empreendem um resgate arriscado, que resulta em lutas, mortes, incêndios, sequestros de navios e naufrágios. Finalmente, ambos buscam destituir o poder dos opressores -- um prometeu matar Wan Guld, o governador-geral da ilha, o outro ajuda a restaurar o poder da ilha ao verdadeiro rajá, fazendo com que o James Brooke abandone o posto e, também suas riquezas.

Entretanto, numa coleção em que tanto já se falou em navegação, aventuras e feitos heróicos em prol do benefício de outrem, o leitor não questiona a validade da pirataria ou os seus valores, porque elas aqui encenam os valores dos pobres e/ ou dos marginalizados, e aqueles que figuram como os piratas que saqueiam, matam e usam de crueldade são mortos em consequência das suas próprias ações, como é o caso dos trezentos prisioneiros que seriam encarcerados em Norfolk, na Austrália, e Sandokan liberta em meio a um levante no navio que ele havia planejado. Continua-se, deste modo, a perpetuar para os jovens leitores a fantasia que, no todo, permeia a idealização da figura do pirata solitário. No fim, não é nada além disso que a coleção -- ou os leitores -- parecem desejar, pois quando o mundo já é tão ruim, é sempre um alívio encontrar nas páginas de um livro a fuga e o mínimo de justiça social.

Fonte de informações sobre o autor: http://pt.wikipedia.org/wiki/Emilio_Salgari



segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Volume 41 - O máscara de ferro - Alexandre Dumas


Ao longo da coleção Clássicos da Literatura Juvenil, a França é um dos países cuja história cultural e política tem sido mais explorada e contada aos jovens leitores. No entanto, parece-me que nenhuma das obras lidas até então mostram-na mais realisticamente do que O máscara de ferro, de Alexandre Dumas, pai -- e digo isso levando em consideração O conde de Monte Cristo, Os três mosqueteiros e Os irmãos corsos, outras obras suas que foram publicadas na coleção.
É bom que se entenda, porém, o sentido de realidade aqui empregado. Não falo de uma história que narre um acontecimento real, mas emprego o sentido de "realidade" para falar do dom que o narrador tem de fazer uma história baseada em dados históricos parecer muito verossímil, dado a ambientação histórica e política, bem como ao caráter de intriga e de poder ali envolvidos, como vamos ver.
O livro tem início, na verdade, com uma breve explicação sobre o caráter fictício da obra, mas isso é o que menos importa quando o leitor mergulha no universo da trama político-religiosa criada por Dumas. Fazendo uso do universo literário dos mosqueteiros, criado anos antes, o autor coloca nas mãos de Aramis, agora um fidalgo que se tornou bispo, a possibilidade de mudar o destino da França, porque ele é portador de um terrível segredo: o de que o rei Luís XIV possui um irmão gêmeo, preso na Bastilha tão-somente pelo fato de existir e, portanto, de colocar todo o reino e a união política da França em jogo.
O segredo de Luís XIII e Anna D'Áustria, pais dos gêmeos, torna-se arma nas mãos do fidalgo que, graças a isso, consegue primeiramente tornar-se o sucessor do prelado da Ordem de Jesus, uma companhia bem no estilo dos templários que, como tal, detém o poder de erigir um rei ou de destroná-lo. De posse dessa informação, usa sua posição de bispo e suas relações políticas com o governador da torre da Bastilha e de um superintendente para criar a situação perfeita para trocar os irmãos de lugar. Antes, toma o cuidado de ensinar a Filipe, o preso, sobre cada membro da corte e dos rituais de seu irmão Luís e, então, consegue realizar a troca.
O interesse de Aramis é, sobretudo, político: deseja tornar-se conselheiro-mor de Filipe, tal como Richelieu havia sido para Luís XIII, e com isso pretende chegar a papa. A forma como o autor vai aos poucos construindo a trama prende o leitor, ainda que numa adaptação infanto-juvenil que não ultrapassa as 150 páginas com ilustrações. Paulatinamente, o leitor começa a entender que o fato de Luís XIV ser um rei fraco, vaidoso e injusto para seu povo e seus leais súditos da corte não constitui o motivo autêntico para a troca, mas o desejo maior de governar por detrás, como se Filipe fosse um títere nas mãos de Aramis -- o que, certamente, desaponta o leitor, já acostumado com a ideia heróica e leal dos mosqueteiros. Tal desapontamento é expresso, oportunamente, nas desconfianças e no lamento de D'Artagnan, que vê seu amigo Porthos envolvido na traição real sem que se dê conta do que realmente está fazendo, porquanto Aramis o usa para realizar suas ações sem dizer-lhe exatamente a quem estão transportando e para qual finalidade, quando sorrateiramente faz a troca dos gêmeos.
A tentativa teria tido sucesso se Aramis não tivesse contado com a parceria e a ambição de Fouquet, o superintendente. Para seu arrependimento, o amigo revela-se um fiel servidor de Luís XIV, ainda que este não goste dele e o deseje prender por intrigas outras que fazem parte da trama secundária. Sendo assim, Fouquet lhe responde claramente ser contra o intento já realizado e, após dar uma dianteira para a fuga de Aramis e de Porthos, vai à Bastilha e liberta Luís XIV. Este é o momento em que, furioso, o rei toma conhecimento da existência do irmão e que ordena a colocação de uma máscara de ferro, para que jamais possam novamente ter conhecimento da semelhança e da ligação de ambos.
Diferentemente do que ocorre nos filmes, nas séries e novelas e em outras adaptações infantis, o livro não traz bom termo aos mosqueteiros e ao príncipe Filipe: esta adaptação, mais fiel ao original, demonstra a falta de reconhecimento de Luís XIV para com seus fiéis súditos, mandando prendê-los; Filipe não se livra da máscara; e os mosqueteiros se vêem separados para sempre, numa clara demonstração que, em nome do poder, o homem, ainda que dono de uma cultura elevada, de status social e financeiro e de um bom coração, corrompe-se e, tão alto quanto sobe, acaba por desmoronar.
Fonte de informações sobre o autor: http://pt.wikipedia.org/wiki/Alexandre_Dumas,_pai

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Volume 40 - Heidi - Johanna Spyri




Heidi é uma das poucas obras alemãs dedicadas ao público infantil e juvenil que figura na coleção Clássicos da Literatura Juvenil. Escrito por Johanna Spyri e publicado em 1880, a história trata de uma garota órfã que vai morar com a tia mas que, por falta de recursos financeiros, acaba sendo enviada à casa do avô, nos alpes suíços. Ali, conhece um outro estilo de vida e faz amizade com Peter, o pastor de cabras.

Dos cinco aos oito anos, Heidi não só cresce feliz e sadia, no ambiente pastoril de uma Suíça alpina oitocentista, em um casebre pobre, mas distribui sorrisos a todos a quem conhece e principalmente amor ao avô que, antes, havia passado anos e anos amargurado, de mal com o vilarejo, cujos habitantes nada faziam além de suposições e fofocas a seu respeito. Isso porque, vindo do estrangeiro com um filho pequeno, não se comunicara com ninguém, e o isolamento fôra-lhe prejudicial após a morte de seu filho.

Aos poucos, Heidi -- que, na verdade, chama-se Adelaide, como a mãe falecida -- conquista o avô, mas ela se vê repentinamente presa nos planos de sua tia Deti, que volta para buscá-la e colocá-la como pequena dama de companhia de Clara, uma menina de doze anos que mora em Frankfurt e é paralítica, e cujo pai é um viúvo muito rico que raramente fica em casa. O período de conhecimento da cidade grande e do processo de adaptação de Heidi tem seus momentos engraçados, na fala de um narrador onde tudo nos alpes é grandioso e muito iluminado, mas onde tudo na cidade é triste e sombrio, numa construção de atmosfera feita muito claramente para construir contrastes de ambientes. Embora Heidi goste muito de Clara e eventualmente aprenda com ela e com a avó dela muitas coisas boas e práticas, Heidi definha silenciosamente de saudade dos Alpes e de seus amigos e avô, até que o pai de Clara retorne de uma viagem de negócios e perceba o que está acontecendo com a menina.

Uma vez de volta às montanhas, Heidi visita seus amigos e leva-lhes presentes. Dentre eles, o maior é a habilidade de poder ler para a avó de Pedro, porque a velhinha, já cega, sente falta dos hinos religiosos. Na esteira da formação cristã protestante alemã, a autora constrói a trama, e assim a história preferida de Heidi é a do filho pródigo, numa clara alusão ao avô.

Do mesmo modo, o processo de alfabetização, tal como narrado, faz bastante jus ao que conhecemos dos métodos dos séculos XVIII e XIX, antes da grande reforma em prol das crianças pobres. Aqui, qualquer vadiagem ou negação a aprender, por qualquer que seja o motivo, é ameaçada. Há versos que ensinam o alfabeto na base da ameaça, e esse modelo era na época tido como um grande modo de ensinar às crianças.

O terceiro momento é reservado à série de visitas que o médico da cidade, a avós de Clara, o api de Clara e a própria Clara fazem aos Alpes um ano após o retorno da menina às montanhas. Ali, por conta do extremo cuidado do avô para com a mocinha e também devido ao ciúme de Pedro, que já não pode ficar com Heidi só para si durante od ia inteiro, a cadeira de rodas é empurrada para despencar morro abaixo, numa tentativa de fazer com que a menina vá embora. O feitiço, porém, vira-se contra o feiticeiro, e Clara conta com a ajuda de Pedro e de Heidi para começar a andar.

Nesse romântico claramente instrucional, o avô reconcilia-se com Deus e com a sociedade, a paralítica volta a andar, o pai que perdeu uma filha ganha a companhia de outra criança, e Heidi se vê financeiramente amparada pelo médico e pelo pai de Clara. Costurando a trama vem a figura da avó de Clara, que ensina o poder do amor, da fé e do perdão de Deus para com seus filhos. É isso o que este romance, que inaugura uma categoria no gênero infantil e juvenil, faz: prende-nos a um sonho já não possível de cumprir, e onde a realidade é mais perfeita do que nós mesmos esperamos. Se, de alguma forma, ela nos resgata da realidade crua e fria de hoje, com tantas opções e sem ninguém em quem confiar para deixar a porta de uma casa aberta, ela cumpre seu papel histórico e ideológico.

Fonte de informações sobre a autora: http://pt.wikipedia.org/wiki/Johanna_spyri

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Volume 39 - Winnetou - Karl May

Karl May não é um nome que inspire conexões imediatas para muitos leitores. Não é sequer um nome que nós, brasileiros, tenhamos comumente estudado em algum momento de nossa escolarização. Para aqueles que, no entanto, tenham sido guiados em suas leituras pela busca de aventuras, o nome deste alemão deve trazer à tona memórias de histórias de encarniçadas lutas indígenas em nome da preservação de seus valores, ou exóticas histórias no oriente.

Antes de escrever histórias no último quartil do século XIX, quando a Alemanha proliferava seu desenvolvimento literário, o jovem alemão, filho de uma família de tecelães com numerosos irmãos e muitas mortes em decorrência da pobreza e da falta de condições de cuidados com suas crianças, já tinha se formado professor, tido seu título cassado em consequência de roubo, e anos e anos de prisão e trabalhos forçados por conta de seus atos ilegais, até que tivesse sua alma, por assim dizer, resgatada por um missionário que visitava os detentos nas cadeias.

De ladrão a homem recuperado, Karl May tornou-se escritor e, aproveitando-se da febre literária e do desenvolvimento alemão do segundo Reich, escreveu inúmeras histórias que desejavam resgatar para os europeus o espírito romântico de bravura e heroísmo, em terras indômitas, para jovens leitores, ávidos por conhecer um lado da história humana a que agora, diante da urgência em destacar a pátria e a formação de mão-de-obra, já não viviam.

Desse modo é que a coleção Clássico da Literatura Juvenil apresenta Winnetou, o jovem guerreiro, cacique dos apaches, que o narrador em primeira pessoa diz ter sido o último dos grandes e honrados guerreiros indígenas dos Estados Unidos. Nesta adaptação de Maria Aparecida P. de Freitas, um alemão que viaja aos Estados Unidos em busca de aventuras no oeste a ser desbravado acaba se tornando preceptor (professor de crianças e jovens) de uma família alemã instalada há alguns anos no território, quando conhece Sam Hawkes. Este, embora muito maltratado pela vida no oeste, afeiçoa-se a ele e o treina, sem que este saiba, para a vida no território hostil. É devido à sua grande habilidade com o manejo de armas brancas e de fogo e de sua grande força que o jovem alemão se torna conhecido como Mão-de-Ferro, e logo no início da narrativa, quando está em missão de demarcação de terras para a construção de uma estrada de ferro, que vem a conhecer o cacique Intschu-Tschuna e seu valoroso filho Winnetou. Numa tentativa de estabelecer a paz entre brancos e índios, o jovem e seu amigo tentam conversar com os índios e com Klekih-Petra -- ou "pai branco" --, um senhor já idoso e também alemão que havia se radicado em terras indígenas, em defesa dos povos de pele vermelha contra a sanha branca de invadir suas terrase pilhar seus bens. Ocorre, porém, de haver desavença e de um branco matar o senhor alemão, e a guerra se estabelece. Em meio a isso, Intschu-Tschuna e Winnetou são capturados e Mão-de-Ferro os liberta, e depois de mais aventuras, o branco acaba tornando-se irmão de Winnetou.

A aventuras, narradas num estilo episódico, é repleta de lutas, perseguições, capturas, libertações se reféns e justiça feita à bala e à faca. Nesse ínterim, morrem Inschu-Tschuna e sua filha, Nscho-Tschi, tida como a bela flor da tribo. À morte do pai e da irmã, Winnetou segue na captura do assassino, o branco Santer, mas nas diversas vezes em que se vê à sua caça, este se lhe escapa, pois conta também com a ajuda da tribo dos kiowas, a quem presta favores.

O livro apresentado ao leitor é na verdade uma adaptação da somatória dos quatro volumes publicados por May com o nome Winnetou, e segue com muitas outras aventuras, que envolvem desde a ida do alemão a Nova York e seu serviço como detetive, até suas idas à Alemanha e ao seu retorno ao território do oeste, onde ele se envolve em resgates de trens assaltados por bandos de indígenas liderados por bandidos brancos, até a ajuda oferecida por ele e pelo irmão índio a uma colônia cristã de alemães radicados no oeste. É, aliás, durante o conhecimento que trava com os colonos de Helldorf que Winnetou decide converter-se ao cristianismo, comovido que se vê diante do cântico da "Ave-Maria" e da crença que tem num Pai celestial de amor e de união, e não de guerra, como é o Grande Espírito guerreiro protetor dos indígenas. Após tantas aventuras, é justamente ao resgatar os colonos de Helldorf das garras de bandidos brancos que Winnetou tomba, baleado pelas costas. Morre ao ouvir o cântico da santa, mas antes faz o escritor Carlos -- porque o narrador revela-se como Carlos, escritor (tal como o autor, o que significa que a personagem é um alter ego do autor) -- prometer que iria ao túmulo de seu pai e de sua irmã e, perto deles, desenterraria o testamento a ser lido para a sua tribo apache. É durante esta aventura que Carlos, o Mão-de-Ferro, é capturado por Santer e pelos kiowas, mas liberta-se e vai atrás do mortal inimigo de Winnetou, na jura de vingar as mortes dos amigos indígenas e de recuperar o testamento que Santer consegue roubar. Eventualmente, é claro, ele o alcança e Santer, vítima de sua própria cobiça e insensatez, morre, levando consigo o testamento dos apaches e o segredo dos tesouros em ouro e pedras preciosas que Winnetou revelava na carta enterrada, e de que os apaches só faziam uso quando iam às cidades dos brancos e tinham a necessidade de pagar pelo que queriam ou precisavam. "Lembre-se, meu irmão, o brilho e dos diamantes é o próprio fulgor da morte que, se não destrói o corpo, arrasa o espírito!", é o que diz Winnetou a Mão-de-Ferro antes de morrer, numa mostra da visão romancizada do autor, segundo a qual o indígena é puro, corajoso e sempre digno.

Nesta história, ao mesmo tempo em que se deleita com a série de aventuras, o leitor se depara com a linguagem rebuscada, típica ainda do início do século XIX, e com um conhecimento topográfico, climático e de nações e tribos indígenas que com muita propriedade dão o caráter verossímil à narração. Entretanto, curioso é saber que, quando o livro foi lançado (primeiro em episódios publicados em magazines e, depois, em edições de livros), Karl May não havia sequer pisado em solo norte-americano, quanto mais conhecer tribos, aventureiros e desbravado terras. Em sua experiência literária, tinha-se valido de suas leituras das obras de escritores como James Fenimore Cooper (que apareceu nesta coleção com O Último dos moicanos), bem como de livros de história, mapas e notícias de jornais para constituir o que se torna uma narrativa envolvente e muito bonita da figura do índio e de seu valor na nação americana. Soma-se a esta pesquisa a criatividade de May, e então o leitor tem em mãos esta obra que pode não ser muito lida hoje, mas inspira ainda a ideologia americana de nação e a crítica ao falso ideologismo, e que é, por exemplo, lembrada por pessoas do calibre do cineasta Quentin Tarantino, que cita Winnetou em Bastardos Inglórios, numa mostra de que o tema é atual e sempre ideológico, esteja ele investido ou não de um caráter romântico.

Fonte de informações sobre o autor (em inglês): http://en.wikipedia.org/wiki/Karl_May

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Volume 38 - O pequeno Lorde - Frances Hodgson Burnett

Frances Hodgson Burnett é, nos dias de hoje, mais conhecida por sua obra O jardim secreto, que foi transformada em filme nos anos 1990, mas sua fama atravessou os mares quando ela publicou O pequeno lorde, que a coleção Clássicos da Literatura Juvenil apresenta aos leitores em seu trigésimo-oitavo volume.

Publicado pela primeira vez em 1886, o livro conta a história de Cedric Errol, o menininho de sete anos órfão de um pai que era o terceiro filho de um conde inglês, e de uma mãe americana, e que de repente vê sua vida mudada porque o avô, a quem jamais havia conhecido, manda buscá-lo nos Estados Unidos para que viva com ele e aprenda sobre sua linhagem e sua importância, e passe a ser o Lorde Fauntleroy, dono das terras do avô quando este viesse a falecer.

O avô era, na verdade, movido pela solidão e pelo orgulho de sua linhagem, e não por amor. Solitário, ranzinza e amargurado, tendo morrido os três filhos, chama o neto e a mãe, mas recusa-se a conhecer esta, por acreditar que os americanos não passavam de gente baixa, sem educação e cuja personalidade era carregada de interesse e de ganância. Não sabia ele que não só sua nora era a mais digna, educada e recatada das damas, mas incutia no filho o orgulho de ser filho de seu pai e o amor pela virtude, pela verdade e pela caridade, além de um otimismo sem fronteiras. É assim que, vendo-se dono de uma pequena soma de dinheiro ainda nos Estados Unidos, antes de partir, Cedric ajuda a seus amigos, o vendeiro republicano, a família de sua ama de leite, e o engraxate Dick, de quem é também amigo, mas nada compra para si.

O amor e a natural expansão de Cedric, que desconhece o verdadeiro motivo pelo qual o avô o leva à Inglaterra pelas mãos do advogado da família, acabam não só por desarmar o velho homem de sua amargura e de sua descrença na humanidade, mas por curá-lo e também por distribuir com justiça a ajuda aos mais empregados necessitados do condado. Eventualmente, o velho lorde acaba conhecendo sua nora e reconhecendo que ela era a melhor das damas. Entendendo que o neto, com quem morava, jamais deixaria de amar a mãe por mais que se lhe dessem ou com ele estivessem (pois o avô tentara, de primeira, comprá-lo com brinquedos e livros), o homem convida a nora a morar com eles no castelo, posto que ela morava nas propriedades, próximo ao castelo desde que se mudara para a Inglaterra, mas não com o filho.

Não poderia, contudo, deixar de haver o contraponto da felicidade e da lição de vida que o pequeno ensina a todos, espalhando o amor, a justiça e a caridade. A certa altura da história, quando já era reconhecido por todos do condado como o pequeno lorde Fauntleroy, Cedric vê seu posto ameaçado por um repentino herdeiro, que seria filho do primogênito do velho conde. A situação viria a tomar proporções de manchetes internacionais e, assim, nos Estados Unidos, seus amigos saberiam do drama, e teriam condições de ver, pela foto dos jornais, que a mãe do suposto herdeiro era senão a ex-cunhada de Dick, pilantra de marca maior que de fato havia se envolvido com o filho do conde, mas cujo filho era na verdade resultado de sua relação com Ben, irmão de Dick. Em tempo, a farsa é desmascarada e a paz passa a reinar nessa história escrita para crianças.

Há, nesta história de amor familiar, dois aspectos que se pode comentar. O primeiro deles é, certamente, a questão política da rivalidade entre os valores históricos ingleses versus os valores de igualdade pregados pela república norte-americana, aqui colocados por uma autora que havia nascido inglesa e que, ainda jovem, havia se mudado para os Estados Unidos. No início, incute a personagem do vendeiro com toda a gana contra os ingleses e seus preconceitos contra a linhagem, a exploração, a desigualdade entre os britânicos, quando em seu país todos tinham chances iguais e poderiam, se quisessem, candidatar-se a presidente. Porém, com o desenrolar da história, conforme Cedric se inteirava de sua linhagem e da realidade de sua posição e das famílias que viviam no condado, ele ia entendendo que a desigualdade e a injustiça dependiam principalmente da personalidade e do modo de governar, e não do mero fato de ser inglês ou de se estar na Inglaterra. E, sendo a história produto do trabalho de uma filha da era vitoriana, em que o expansionismo inglês estava ainda a toda na Ásia, não poderia ser diferente.

O segundo aspecto que chama a atenção para este livro é o modo como o caráter da personagem Cedric Errol, o pequeno lorde Fauntleroy, é construído, bem como o enredo. Digo isso porque, ao ler a história, não pude deixar de estabelecer relações óbvias com Pollyanna, de Eleanor Holdgman Porter, publicado em 1911 e cuja história fala de uma órfã que vai morar com a amargurada e reclusa tia Polly, uma mulher rica que, à custa da inocência, do amor e da crença de sua sobrinha na justiça e na caridade, passa a fazer caridade e a atender a diversas famílias da região, para finalmente perceber que se torna uma mulher completamente diferente e mais feliz, por amor da sobrinha, sempre tão otimista e querida por todos, e que a transforma pouco a pouco num ser cujo amor e cuja compaixão se tornam evidentes. Imagino, na verdade, que haja estudos comparativos de ambos os enredos, e embora os contextos sejam diferentes e não haja a situação política em Pollyanna, obras como essas -- inspiradas por Frances H. Burnett, são ainda hoje fundamentais para a formação da criança, já que a necessidade de formar pessoas justas, amorosas e caridosas, independentemente de onde vivam, jamais morre.


Fonte de informações sobre a autora (em inglês): http://en.wikipedia.org/wiki/Frances_Hodgson_Burnett

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Volume 37 - Os irmãos corsos - Alexandre Dumas


Muito já se disse e já se ouviu falar da ligação especial e inexplicável existente entre irmãos gêmeos. Nenhuma, porém, parece ser como esta composta pelas mãos de Alexandre Dumas, pai, autor de várias outras obras famosas e que, em 1844 entregou aos leitores a história d'Os irmãos corsos, trigésimo-sétimo volume da coleção Clássicos da Literatura Juvenil.

Embora esta não seja uma das grandes obras de Dumas, pai, tampouco fica à sombra das outras. Verossimilhança à vida de escritor e viajante não falta: o protagonista é um certo Alexandre, sem sobrenome, francês, escritor internacionalmente famoso, que está há mais de um ano viajando, descendo o mapa da França, até que chega à Córsega, este pequeno país reclamado como parte da França, mas que fala um dialeto parecido com o italiano. O ano narrado é 1841, e a descrição sobre a geografia física, a atmosfera, as casas, a gente, a história e os costumes da Córsega são de encantar o leitor, ávido por aventura e que vê, na figura de Luciano de Franchi, um verdadeiro corso e um homem acima de tudo honrado e corajoso. Defensor dos costumes corsos, e até mesmo da polêmica vendetta (a secular briga entre famílias que visa a defender a honra até que todos de uma família tenham sido mortos em brigas), Luciano só abandona sua vontade para atender ao irmão gêmeo, Luís de Franchi, que é em tudo, menos na aparência, diverso do irmão. Luís é homem de Letras, estuda para ser juiz, é de natureza delicada e nunca se encantou pela ideia de pegar numa pistola ou num florete (espada). Estudando em Paris, pede ao irmão que aplaque a ira de duas famílias rivais para que a disputa acabe.

Alexandre fica na Córsega até que este episódio singular aconteça,e testemunha até mesmo um casamento à la Romeu e Julieta entre os filhos das famílias antes inimigas, e depois reinicia seu caminho de volta à França, mas não sem antes saber do aspecto mais curioso da relação entre os irmãos Luciano e Luís: nascidos com os braços grudados, foram separados com o bisturi, mas isso não os desligou de fato, porque um consegue sentir a dor física e espiritual do outro, ainda que nada lhe seja contado. Além disso, há ainda um fato mais assustador: todos os homens da família de Franchi são "presenteados" com o dom de verem os parentes mortos, que vêm para lhes avisarem de suas mortes. São eles os últimos de Franchi, com exceção da mãe Savília, mas como esta é uma mulher, não herdou o dom e, por isso, depende da palavra um do outro para que possa saber que os filhos estão vivos e bem.


Ao retornar à França, Alexandre finalmente conhece Luís de Franchi, mas a situação não é tão feliz: perdido de amor por uma senhora já casada com um grande amigo, Luís se vê diante da tarefa de protegê-la enquanto este seu amigo está viajando a trabalho, mas a senhora, levianamente, apaixona-se por um dos grandes conquistadores da corte francesa. A noite em que Luís resolve travar conhecimento com Alexandre é a mesma em que, para salvar a honra do amigo e de sua esposa, ele é desafiado para um duelo. Embora Alexandre tente dissuadir os padrinhos do oponente, exímio atirador e esgremista, a desistir do duelo -- sem, é claro, que Luís tenha pedido ou saiba desta intervenção --, nada o demove de "limpar sua honra" e, dois dias depois, pela manhã, os dois oponentes vão à floresta de Vincennes para acertarem as contas. O grande senão deste episódio é que Luís já sabia de sua morte certa, pois na noite anterior havia recebido a visita do pai, que viera para lhe avisar de que seria morto no da seguinte. Assim, antes que se dirija ao duelo, escreve uma carta à sua mãe contando-lhe que havia sido acometido de uma febre cerebral e que, á altura em que ela recebesse a missiva, ele já estaria morto. Uma vez tendo resolvido seus negócios, parte corajosamente em direção à sua morte, tendo feito seus padrinhos, Alexandre e um amigo corso que vivia em Paris, jurarem que não contariam a Luciano sobre o duelo, pois este desejaria ir à desforra e correria o risco de morrer também.

A tentativa de Luís, porém, é vã: sequer uma semana inteira se passa antes que Luciano, o corso que jurara não sair jamais da Córsega, bata às 11 horas da noite em casa de Alexandre, certo da morte do irmão. Não havia, contudo, recebido a carta enviada por Luís, e sim recebido o aviso do próprio irmão. Explica ao escritor que, no dia e no minuto em que Luís fora morto, ele sentiu o impacto da bala no tórax e desmaiara. Ao se levantar, olhou para o próprio corpo e constatou as manchas por onde a bala teria entrado, de um lado, e saído, do outro. Chegara em casa somente tarde da noite e vira luz no quarto de seu irmão, e encontrara uma vela acesa. Sobre a cama, vira seu irmão agonizando, com o ferimento sangrando. Finalmente, em sonho, seu irmão lhe dissera exatamente o que acontecera, onde, quando, como o motivo gerador da disputa. Resoluto, avisara à mãe de que iria à Paris para desafiar para um duelo o homem que covardemente assassinara o irmão, porque era conhecedor de que Luís jamais havia tocado em arma alguma até o momento do duelo.

A segurança de Luciano de Franchi é inabalável e é reforçada pelo fato de que, na noite antes do duelo, não recebe a visita de nenhum parente morto. Certo de sua vitória, ele parte exatamente ao mesmo local na floresta onde seu irmão fora morto, sem que para isso ninguém precise lhe indicar o caminho. Ali, ele usa a mesma pistola usada pelo irmão e, finalmente, dá cabo do conquistador que matara Luís uma semana antes, para então cair desalentado e dizer a Alexandre que o irmão finalmente havia sido vingado.

Novamente, um final seco é apresentado ao leitor, mas neste caso, não há pontas soltas na história. Mais do que o final se ajustar ao enredo, o que interessa, particularmente, é o quadro que o narrador descreve, e as oposições entre a França e a Córsega. O questionamento é velado, mas está ali: será que os impetuosos corsos, com sua arraigada cultura da clara e honesta vendetta, eram tão repreensíveis assim, quando em Paris o escândalo, a difamação, a intriga e a covardia eram capazes de dar cabo da vida de um jovem promissor que nada fizera para merecer morrer? No apagar dos lampiões, em pleno desenvolvimento do século XIX, o tão chamado Século das Luzes, Paris é que aparece, nesta história, maculada e culpada.

Fonte de informações sobre o autor: http://pt.wikipedia.org/wiki/Alexandre_Dumas,_pai